

José Carlos Pereira, escritor natural de Felgueiras, também conhecido como dinamizador cultural e investigador académico, acaba de ver publicado um artigo de 24 páginas na Revista de Letras da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), na área Estudos Literários.
Esta investigação tem por título “Cristina de A Noiva de Caná, de António Cabral, entre a sua ambivalência bovariana e a Antiguidade Clássica”, que aborda a principal personagem do romance “A Noiva de Caná”, de António Cabral (1931-2007), escritor natural de Trás-os-Montes.
São estabelecidas semelhanças e diferenças entre Cristina e a personagem francesa Emma, do romance “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert (1821-1880), e com outras figuras femininas da Antiguidade Clássica – por exemplo, a grega Antígona, contra a qual Electra se rebela.
O enredo do romance de António Cabral desenrola-se na década de 80 do século XX, aquando da adesão de Portugal à CEE e dos fundos comunitários atribuídos por Bruxelas. A história tem início quando Cristina, uma jovem pobre e trabalhadora-estudante, ingressa na Quinta das Cambareiras, em Alijó. Começa por fazer os mais diversos trabalhos, passa a escriturária e, depois, a administradora da propriedade, zona do Douro vinhateiro. Nesta quinta, como em todas daquela região, vive-se as mesmas alegrias, as mesmas angústias, os mesmos dramas, muitas adversidades, como “as doenças fúngicas das videiras” e o emprego precário (sazonal) de “homens e mulheres habituados aos trabalhos duros na terra”.
Neste estudo, são feitos paralelismos entre a personagem de Cabral e a de Flaubert. Uma e outra vivem um conflito interior entre religião e a infidelidade conjugal. Cristina “faz o jogo duplo de esposa/adúltera, que é um manto social como disfarce e com o qual cobre as suas opções de intimidade”, numa atitude calculista, não pondo em causa o modelo tradicional de família – tudo se passa no seu meio rural, nos esconderijos da quinta. Já Emma, também casada, mãe de uma menina, foge do seu meio campestre para a “febril cidade de Paris”, entrega-se desenfreadamente aos amantes, pondo em causa os padrões familiares. Ambas as personagens caem na tragédia à maneira grega, morrem, mas Cristina foi mais feliz do que Emma, porque foi verdadeiramente amada e, mesmo depois da morte, não deixou cair a quinta em mãos indevidas; enquanto Emma, não foi amada e afogara-se em dívidas.
Neste artigo, Cristina é comparada com Atossa, rainha regente da Pérsia, mas também com as gregas Antígona, Medeia e Clitemnestra, estas da Antiga Grécia. Em relação à última, a comparação fundamenta-se na discussão entre a referida personagem de António Cabral com a sua filha Rosa, de 15 anos. A filha tem ciúmes da própria mãe em relação a Silvano (que era filho ilegítimo do dono da quinta), um mulherengo, com o qual Cristina tivera uma relação amorosa para evitar os constantes assédios sexuais que o “safardana” fazia à adolescente, que, afinal, era sua irmã. O conflito entre mãe e filha é analisado numa perspetiva do Complexo de Electra, sobre o qual Carl Gustav Jung e Freud se debruçaram, no século XX.
O artigo pode ser lido através do seguinte link:
https://revistadeletras.utad.pt/index.php/revistadeletras/article/view/648/336
publicidade






